segunda-feira, 18 de maio de 2009

Ford GT40 ...16


A dupla do Colégio Arte e Instrução: Lorena 22 e o GT40 20.
Está aqui mais um capítulo da história do piloto Sidney Cardoso junto ao seu Ford GT40.
Como sempre, ele próprio nos brindará com o seu excelente relato sobre essa passagem.

Na foto: Antonio Carlo Scavone, Ernayde Cardoso, Daniel Filho e Oswaldo Loureiro.





guilhermedicin@hotmail.com




Revista Auto Esporte de Fevereiro de 1971.







Nota do Jornal O Globo, em 11-01-71.






8 comentários:

  1. CAPÍTULO: A VOLTA DO GT 40 ÀS PISTAS

    Guilherme e amigos

    Dessa vez não teremos aquela abundância de fotos que vocês estavam acostumados. Isso porque o fotógrafo Waldir Braga, “Estrela”, nunca foi conosco pra SP, embora tenha ido pra Brasília. Pode reparar que nas Mil Milhas em 1967, não dispomos de uma foto sequer dele.

    Não me lembro bem, mas, se não me falha a memória, a revista O Cruzeiro tinha uma sucursal em SP que cobria o automobilismo.

    O “Estrela” ia às corridas para fazer a cobertura fotográfica da revista e nos presenteava com algumas que manifestávamos interesse.

    Possuímos, porém, algumas poucas da segunda bateria que nos foram presenteadas pelo fotógrafo e historiador Paulo Scali e do fotógrafo Rogério P. da Luz, do site:

    http://www.imagensdaluz.com/index.html

    e reportagens do jornal O Globo, que havia guardado, mais as reportagens dessas corridas feitas pela revista Auto Esporte que me foram enviadas pelo pesquisador e amigo Ricardo Cunha.

    Achei interessante introduzir um pequeno comentário que farei a seguir, antes de começar a falar sobre a volta do GT 40 às pistas, porque poderia ficar uma falsa impressão aos novos, que nossa equipe ficou parada durante aquela longa novela do balanceamento de seu motor.

    O GT 40 ficou impossibilitado de participar de corridas, mas nós, concomitante a isso, continuamos participando.

    O Lorena o substituiu em três corridas, duas comigo no Rio, e uma em Brasília onde corri em dupla com Heitor Peixoto de Castro.

    Heitor e eu participamos também, não em dupla, de duas corridas com Ford Corcel, no Primeiro Torneio Nacional Ford Corcel, uma em Interlagos, outra no Rio.

    A Ford, que havia tido um problema com a suspensão do Corcel GT, acabou fazendo o primeiro recall da indústria automobilística no Brasil em 1970. Para demonstrar que os carros ficaram bons, promoveu este Torneio solicitando às federações de automobilismo dos estados que indicassem os pilotos que iriam participar.

    Voltando ao GT 40, terminada a novela do balanceamento do motor, ele voltou a ficar enxutinho de novo e com mais 20 cavalos, agora com 420 HP, depois que adquirimos o novo comando.

    Meu pai, chefe da equipe, sabendo do bom pedigree dele, não estava querendo desmerecê-lo, planejava trazê-lo de volta às pistas numa corrida de peso, tradicional.

    Nisso nos liga, da TV globo de SP, Antonio Carlos Scavone comunicando que a Rede Globo em parceria com a Scavone Empreendimentos, firma que montara, iriam promover a vinda pela primeira vez ao Brasil de uma corrida de Fórmula Três.

    Disse-nos que viriam os brasileiros que estavam correndo na Inglaterra: Emerson e Wilson Fittipaldi, José Carlos Pace, Luiz Pereira Bueno, Ricardo Achcar, José Maria Ferreira, “Giu”, Ronaldo Rossi e Fritz Jordan.

    Além de todos pilotos estrangeiros que participavam dessa modalidade, como a grande promessa daquele ano David Walker, e outros como Alan Jones, François Migault, Tony Trimmer, Giovanni Salvatti,etc.

    Scavonne nos convidou para participar das provas preliminares, levando o GT 40 e o Lorena, oferecendo-nos, inclusive, ótimos prêmios apenas para alinhar na largada, independente de qual posição os carros ficassem, (isso foi uma inovação àquela época).
    E mais ótimos prêmios para os bem colocados no grid de largada, bem como para os bem colocados no final de cada corrida.

    Que diferença daquelas ligações anteriores nas negociações das filmagens!


    Antonio Carlos Scavone merece um destaque aqui pelo que fez pelo automobilismo. Foi uma pena que veio a falecer cedo naquele acidente aéreo em Orly, em 1973, cinco anos após essa foto, quando estava viajando pra Inglaterra, com Julio de Lamare, para transmitirem o GP da Inglaterra de 1973. Nesse mesmo fatídico vôo faleceram o cantor Agostinho Santos e a socialite Regina Leclery.

    Eu já o conhecia de dentro das pistas, ele chegou a participar com um Interlagos em umas poucas corridas aqui no Rio, numa delas eu estava também, foi na Prova Luso-Brasileira - Almirante Tamandaré. Vejam nossos nomes na cronometragem oficial dessa prova, realizada em 17-12-1967.

    Foi ele quem planejou, trouxe e gerenciou os torneios BUA de Fórmula Ford em 1970, depois esse de F-3. Devido sua boa gerência neles conseguiu trazer o primeiro GP Brasil em 1972, na época ainda extra-oficial.

    Tive também uma ótima convivência com ele quando das gravações da novela Véu de Noiva, onde ele também fornecia apoio técnico, (ele é o que aparece meio encoberto por meu pai, nas duas fotos feitas pelo “Estrela,” durante os 1000 km da Guanabara, onde estão também Daniel Filho e Oswaldo Loureiro).

    Desculpe-me se, às vezes, me alongo um pouco, poderia encurtar dizendo apenas que Antonio Carlos Scavone telefonou nos convidando pra correr em SP, o texto ficaria mais enxuto, mas fiz questão de prestar esse pequeno tributo a ele, porque estamos falando de automobilismo brasileiro, onde, como vocês viram, ele prestou grandes serviços em rumo ao seu profissionalismo e pouca gente tem conhecimento disso.

    Bem, ficamos todos felizes com essa notícia, poderíamos rever alguns amigos pilotos que estavam correndo fora e, finalmente, o GT 40 voltaria às pistas.

    Como Interlagos – traçado antigo - possuía reta bem mais longa que a do Rio, e, como já disse anteriormente, estava nos planos de nossa equipe participar de todas as provas do campeonato brasileiro, já havíamos encomendado, com antecedência, à Motor Racing Enterprises uma relação de marchas apropriada pra aquela pista.

    Ligamos para a ZF, o GT 40 usava a caixa de marchas fabricada por ela, e ficou acertado que ela faria a troca das marchas, aproveitando pra mostrar ao nosso mecânico Antonio as ferramentas próprias para aquela operação e a maneira de realizá-la mais rapidamente.

    Partimos com os dois carros pra SP com antecedência a fim de fazermos tudo com calma.

    Chegamos à fábrica da ZF, com quem tínhamos boas relações apenas por telefone, e ficamos surpresos com a amabilidade que nos receberam, desde seu Presidente, que nos levou pra conhecer literalmente toda fábrica, apresentando-nos a todos diretores, supervisores.

    Recebemos sorrisos amistosos de todos por onde passávamos,incluindo os funcionários da limpeza.

    Eles haviam encomendado à Alemanha e já estava lá todo ferramental específico para a caixa de marchas do GT 40. Incrível a organização deles!

    Em determinada hora, quando fomos comunicar que iríamos dar uma pequena saidinha pra fazer a refeição fora, o presidente vira-se pra nós e fala: - Como? Nada disso! Estávamos os aguardando, vocês são nossos convidados e vão nos dar o prazer de almoçar conosco em nosso restaurante!

    Assim foi, fizeram a troca da relação de marchas bem mais rápida, ao mesmo tempo em que iam demonstrando ao Antonio como proceder. Sentimo-nos muito felizes com a agradável e eficaz recepção.

    Roberto Machado, supervisor de nossa equipe, que tinha proposto angariar mais patrocinadores pra ela, observando tanta cordialidade, resolveu aproveitar a proximidade física da ZF com a Ford, pra darmos uma passadinha lá pra ver se conseguiríamos algum patrocínio ou algum suporte técnico, visto que o carro era importado e a aquisição de peças por particulares era demorada, havendo muita burocracia.

    Expomos esse fato ao pessoal da ZF, que entendeu perfeitamente e nos passou o telefone da Ford.

    Telefonamos de lá mesmo, marcamos a visita, agradecemos a amistosa recepção, nos despedimos.

    Roberto e eu partimos pra lá. Meu pai fora contra, devido estar em briga com uma pessoa de lá que fizera a pressão contra a vinda de nosso GT 40.

    Lembro-me que Roberto disse pra ele: - Dr. Ernayde, quem sabe a diretoria nem tenha conhecimento disso? O máximo que podem nos dizer é um não. Se não tentarmos, ficaremos na dúvida pra sempre.

    Ele continuou relutando, mas Roberto e eu o ganhamos na insistência.

    Chegamos lá, nos apresentamos à recepcionista que já havia sido comunicada de nossa visita, ela informou ao Presidente de Relações Públicas, com quem havíamos nos comunicado por telefone, e nos transmitiu seu recado para aguardamos um pouco que ele estava finalizando uma reunião.

    A recepcionista foi bem amigável, nos oferecendo cafezinho, etc.(Só estou me alongando porque um desses personagens entrará em cena na corrida).

    Passaram uns 20 minutos e nada. Quando chegou 40 minutos, falei com Roberto: - Quer saber de uma coisa, vamos embora que estamos perdendo tempo.

    Ele: - Já que estamos aqui vamos aguardar mais um pouco.

    Aos 50 minutos fomos convidados pra entrar.

    Fomos recebidos com sorriso nos lábios, conversamos amistosamente.

    Roberto expôs o que desejávamos, o Presidente ouviu com toda atenção, falou que iria conversar com seus superiores nos dando uma resposta posteriormente.

    Convidamo-lo pra nos dar a honra de assistir à corrida. Ele não deu certeza, mas disse que faria o possível pra ir. Trocamos cartões e nos despedimos reforçando o convite.

    Sábado, 09-01-1971, dia dos treinos em Interlagos:

    Graças à parceria da Scavone Empreendimentos com a TV Globo, a emissora fez boa divulgação deste evento e o Autódromo estava com bom público.

    Ficamos felizes em reencontrar velhos amigos e pilotos que há tempos não víamos, o GT 40 estava redondinho, a nova relação de marchas estava perfeita pra Interlagos.

    Ele, talvez por ter ficado algum tempo fora de seu habitat, parecia colaborar pra termos a satisfação de batermos o recorde de esporte protótipos em Interlagos com o tempo de 3m 13 s 0/10.

    Agradeço em muito isso a Luizinho Pereira Bueno que em 1967, quando corri as Mil Milhas de Alfa Giulia TI, e fiquei umas 6 voltas o acompanhando de perto, aprendi segredos maravilhosos daquele traçado com esse Mestre e querido amigo.

    Endosso literalmente o que disse Jackie Stewart e muitos outros renomados pilotos, Interlagos (traçado antigo) era simplesmente o melhor circuito do planeta.

    Por favor, não me entendam mal, muito longe de mim comparar-me a eles, o que estou dizendo, que fique bem claro, é que quando se pega a mão em Interlagos é delicioso guiar nele, há curva de todos tipos. A 1 e a 2 com aqueles relevês eram saborosas, sua longa reta idem, a 3 idem, enfim, há curvas de alta, de média e baixa velocidade, além de subidas e descidas.

    Pena, que nosso treino foi após o da Fórmula 3, e Wilson Fittipaldi havia estabelecido um novo recorde pra Interlagos com 3m.6 s 3/10.

    Infelizmente, como vocês constatarão nas imagens escaneadas, nem a Auto Esporte, tampouco o jornal O Globo, publicaram os tempos do treino de classificação dessa primeira corrida preliminar. Portanto, posso estar sendo traído por minha memória que se lembra que o recorde de 1967 pra cá era do Fitti-Porsche nos treinos das Mil Milhas 1967.

    O oficial foi com Wilsinho de 3m 32 s 0/10 e extra oficial, (tirado fora da hora de marcação do mesmo), com Emerson 3m 31s 8/10.

    Esses dois tenho certeza, estava lá, inclusive cronometrei-os também e bateram exatamente essas marcas.

    Lembro-me que “Moco” havia me dito anos depois quando a Alfa P33 já havia chegado, provavelmente em 69, que ele, num teste, o havia batido extra oficialmente para 3m 14 s 7/10, também acredito piamente na palavra do “Moco”.

    Como no Rio, nos 1000 km, não tive tempo de treinar como vocês viram num dos capítulos anteriores, só saí pra marcar tempo e estávamos por uma diferença de 2/10, acho bem lógica as informações que possuo.

    Como não gosto de passar informação incorreta, e ficamos algum tempo com a atenção focada na recuperação do motor do GT 40, pode ser que em 1970 tenha havido alguma corrida em que esse tempo do “Moco” tenha sido batido, sem que nós tivéssemos tomado conhecimento.

    Portanto, se alguém tiver conhecimento de tempo abaixo desse meu em algum treino anterior a essa corrida, por favor, peço que se manifeste escrevendo nos recados ou envie um e-mail pra mim ou para o Guilherme, deixando a informação. Pode ter certeza de que será recebida de bom grado e será retificada aqui, se for o caso.

    Há um ditado de Alexandre “o Grande,” que pauto a minha vida: “Prefiro envergonhar-me da derrota a roubar frutos alheios”.

    Passei pra vocês as informações que guardo em minha memória, da mesma forma no capítulo posterior, quando for falar da terceira e última preliminar da Fórmula 3, em 25-01-1971, irei registrar que a Lola T 70 com Antonio Carlos Avallone desceu esse recorde pra 3m 9 s 8/10.

    Talvez vocês estranhem os tempos da corrida com os dos treinos, isso se deveu a tirarmos o tempo com pista seca e ter chovido nas duas baterias das corridas.

    Voltando, imaginem nossa felicidade no retorno ao hotel.

    Irei fazer a descrição de “como” foi a corrida. É certo que o resultado é o que importa, mas vejam como os números são frios, muitas vezes não exprimem como foi a corrida, inclusive os de meu amigo Ricardo Cunha:
    1971 –
    10/01 - Preliminar do Torneio Brasileiro de Fórmula 3 - Interlagos - Primeira corrida - segundo colocado - Ford GT-40 (# 20)

    Tendo como referência apenas os números acima, não fica a falsa impressão de que nosso GT 40 andou mais lento que algum outro carro?

    Portanto, farei abaixo a descrição de "como" foi a corrida.

    Domingo, 10-01-1971, corrida:

    Larguei na posição de honra com o GT 40, tendo ao meu lado Lian Duarte com Royalle Ford, e Sérgio Mattos também de Royalle, completando a primeira fila.

    O Porsche 910 de Luis Carlos Moraes só não alinhou na primeira fila, devido ele ter chegado após acabar o horário dos treinos oficiais, embora a maioria dos pilotos, inclusive eu, que tive a honra de encabeçar a lista, assinou um abaixo-assinado pra ele correr.

    Foi parecido com aquele incidente com o GT 40 nos treinos dos 1000 km da Guanabara 69, ele, portanto, largou em último.

    Na segunda fila, sinceramente não me lembro com exatidão, recordo-me que Heitor estava nela com o Lorena.

    Não irei descrever a corrida no geral porque as reportagens escaneadas do jornal O Globo e da revista AE já fizeram bem, e porque participando dentro de um dos carros perdemos a visão ampla dela. Acrescentarei apenas alguns detalhes de nossa equipe, visto que aqui estamos tratando de um assunto específico, o GT 40 chassi 1083, que a integrava.

    O Lorena teve a falta de sorte de ser abalroado logo na primeira volta, ficando com um de seus pára-lamas traseiros prendendo no pneu, e teve que ir para o boxe, ficando lá consertando.

    Não adiantava voltar devido a corrida ser curtíssima, apenas 8 voltas. Até esse acidente com o Lorena só soube depois, visto que não havia rádio nos carros.

    Vamos, pois, pular direto pro olho do furação.

    Na sexta volta, a antepenúltima, vinha liderando tranqüilo, já sentindo antecipadamente como seria o doce sabor da vitória, mantendo 40 segundos de diferença para o segundo colocado, seguindo fielmente a estratégia combinada.

    Quando... Surpresa! Na reta, senti um forte cheiro de curto. Pensei: - Só faltava essa! Ah, não! Vou continuar!

    O cheiro foi aumentando gradativamente e supus que o carro poderia se incendiar.

    Parei na Ferradura - ali o odor de curto estava fortíssimo - soltei rapidamente, abri o capô do motor e lá não havia cheiro nenhum, ao contrário de dentro da cabine.

    Corri pra trás pra ser visto lá de cima e acenei desesperadamente chamando os mecânicos, (pra quem conheceu esse circuito antigo sabe que a Ferradura fica encoberta pelo barranco), o mecânico Antonio após ver meus sinais veio correndo e escorregando pelos barrancos devido à lama criada pela chuva.

    Narrei-lhe rapidamente o fato, ele também foi verificar atrás e constatou que não havia odor de curto no motor. Quando pôs o rosto na cabine sentiu logo o forte cheiro. Fez uma vistoria rápida nos fios, não achou nada e aí teve o estalo!

    Ele: - Esse botão do limpador está na posição ligada ou desligada?

    Olhei, respondi: - Ligada!

    Ele: - Desliga e liga!

    Assim fiz e as palhetas não se mexiam.

    Matamos a charada! Como a chuva havia ficado intermitente, e eu ligava e desligava o limpador, em dado momento que a chuva parou houve o curto-circuito com ele ficando parado, porém na posição ON.

    Preocupado em olhar pra mostradores mais importantes como conta-giros e pressão do óleo, não havia percebido que ele ficara naquela posição.

    Desliguei o botão.

    Nisso passa Graziela Fernandes com a Alfa GTA, que há momentos atrás o GT 40 tinha colocado uma volta em cima. Ela olha pra nós e vendo o carro parado com o capô pra cima, supôs corretamente que ficaria por ali e seguiu tranqüila sem muita preocupação com o retrovisor.

    Falei para o Antonio: - Vai fechando o capô, eu vou entrando e farei o final da prova sem colocar o cinto(era de 5 pontos e perderia muito tempo).

    Nessa hora passa por nós Lian Duarte, que vinha em segundo com o Royalle, e assume ali a liderança da corrida.

    Saí atrás dele como um louco, só conseguindo colar em sua traseira na entrada da curva do Cotovelo.

    Quando fiz a tomada pra ultrapassá-lo por dentro, Graziela, que havia rodado, volta pra pista e vendo apenas o Royalle, entra justamente no local que estava o GT 40.

    Freei forte, girando o volante bruscamente pra esquerda, evitando a colisão. Os pneus travados foram deslizando na pista molhada, precisei ir, simultaneamente, apertando e soltando o pedal, a fim de não seguir deslizando de encontro ao barranco, e vi o Royalle se distanciando e sumindo de vista.

    Adoro a Graziela, na época até mais que isso, acho que não tem quem a conhecesse que em sua presença não ficasse subitamente hipnotizado por tamanha beleza facial e corporal, aliada à sua doçura de espírito.

    Ela lembrava muito a Rachel Welch – um dos maiores mitos de beleza dos anos 60 - mas, confesso que naquela hora a xinguei muito em pensamento.

    Vi que ela se surpreendera com minha rápida volta à pista. Acenou se desculpando e parti de novo em busca do terreno perdido.

    Entramos na penúltima volta, a sétima, fui fazendo das tripas coração pra me aproximar e reconquistar a posição. Quando passo pelas arquibancadas vejo o público ansioso de pé.

    Dos boxes me dão sinal lembrando-me só teria mais duas voltas. Recordo-me que saí da curva 2 e vi o Royalle saindo da 3, uma reta de diferença!

    Fui apertando tudo que podia dentro do limite, de olho no conta-giros.

    Pra encurtar, oitava volta, a última. Fui me aproximando na curva da Junção, na do Café aproximei-me mais, na entrada dos boxes (pela visão periférica deu pra ver o público todo de pé, com os braços levantados, torcendo nas arquibancadas), vi a traseira do Royalle ir crescendo à minha frente, tentei pegar o vácuo e encurtar o caminho por dentro.

    Lian com sua perícia, intuiu qual era minha intenção, magistralmente se manteve por dentro apertando mais. Na tentativa final joguei pra direita e o Royalle recebeu a bandeirada com o GT 40 o ultrapassando bem antes de chegar a curva 1.

    Voltamos para os boxes sendo aplaudidos freneticamente, e... Surpresa! O Presidente de Relações Públicas da Ford estava lá, vindo cumprimentar-me visivelmente emocionado.

    Falou pra mim e para os membros de nossa equipe que iria falar com o Presidente Geral da Ford do Brasil se empenhando ao máximo em conseguir o que havíamos solicitado.

    Disse-nos que percebeu claramente o suspense e ansiedade que se instalou no público quando, o GT 40 não passara na hora prevista e, inesperadamente, surgiu o Royalle na liderança da sexta volta, (é que quando parei na Ferradura, mesmo em Interlagos antigo que a visibilidade do circuito era bem maior, o público das arquibancadas não viu, aquele era um dos poucos pontos cegos do circuito).

    Deu pra sentir que ele era sensível, ao mesmo tempo um observador muito atento às reações do público, e que conhecia bem a Psicologia de Massa quando continuou: - Percebi que de início o público estava meio dividido, porém, quando você que passara as seis voltas liderando onde estavam essas pessoas, sumiu, surgindo depois bem atrás, elas deduziram que teria havido algum problema e sentiram que havia sido sanado, devido o GT 40 passar por elas como uma flecha, com o motor redondinho assoviando alto. A partir daí até aquelas que não estavam torcendo para o GT 40, começaram a vibrar entusiasmadas pra que ele voltasse a ocupar seu lugar de direito.

    Desejou-me bastante sorte na segunda bateria, e visivelmente feliz, tinha como certo de que nessa a vitória seria nossa. Nós achávamos o mesmo, pela lógica o resultado mais provável seria esse.

    Roberto Machado e a turma estavam inconformados com o problema da pane.

    Os que estavam com a visão pra pista na frente dos boxes, caso dele que fazia a sinalização com as placas, disseram que ficaram surpresos quando não passei no tempo que era aguardado ali. Por instantes pensaram que teria havido algum acidente. Por outro lado, nenhum deles conseguia disfarçar a imensa alegria de termos conquistado um aliado tão importante para a manutenção perfeita do GT 40.


    Amigos, de início minha intenção era descrever as duas baterias num só capítulo. Vejo, agora, que ficou longo, portanto, acho que ficará mais agradável pra vocês fazê-la num próximo capítulo.

    P.S. Na imagem escaneada do jornal O Globo, devido ao formato da diagramação na página, apaguei o título e a parte da direita onde descreve a segunda bateria, pois perderia a graça aparecer antes de falarmos sobre ela.

    Com isso essa imagem ficou prejudicada em sua estética. Mas salvei antes o original com a reportagem completa, portanto, quando formos falar da segunda bateria a reportagem aparecerá em sua totalidade.
    Até lá!

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  2. oi sidney e guilhrme, é a primeira vez que deixo um comentario aqui, mas sempre acompanho e espero pelos novos capitulos. e eu gostaria de parabeniza-los e agradecer por esse resgate e tão bons momentos.
    arthur borges

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  3. Muito boa a narração dos fatos feitas pelo Sidney. É interessante ver como as coisas aconteciam nos bastidores.
    E também muito justa a homenagem ao Scavone.
    Texto saboroso como sempre. Parabéns.

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  4. Sidney, agora além do GT40, das suas histórias, também sou fã dos seus textos!
    Muito legal, como o texto começa morno, numa mesma cadência, daí na hora do apuro em que o GT40 pára a gente vai ficando apreensivo e quando ele passa em frente a arquibancada, eu torci junto, pra que ele tivesse chegado a tempo!!

    Arthur, obrigado pelas suas palavras, comente sempre que quiser.

    Abraço à todos,

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  5. Sacanagem Sidney! Isso não se faz! HaHaHaHaHa!
    Bom, agora é aguardar o próximo capitulo com a segunda bateria.

    Eu também pararia caso senti-se um cheiro de queimado no carro e viesse na minha cabeça à palavra INCÊNDIO. HeHe!

    É fascinante ler suas historias. Mesmo sendo relativamente novo (28 anos), ler suas historias sobre as competições automobilísticas brasileiras (especialmente a carioca) e seus bastidores me encantam tanta quanto um Shaker balançando no capô junto com o som do motor V8 :D

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  6. Arthur Borges
    Obrigado, a casa não é minha, mas peço licença ao Guilherme pra fazer minha as palavras dele: comente sempre que quiser.

    A gente se empenha pra fazer o melhor que pode no resgate do automobilismo, portanto, é prazeroso receber o retorno de vocês. E quando não gostar, por favor, se manifeste da mesma maneira.


    Maurício

    Esteja certo de que suas palavras entraram por meus ouvidos e ficaram guardadas no coração.

    Amigos não pensem que é rasgação de seda, estou, apenas, deixando fluir para o teclado a boa energia que toma conta de mim quando ouço ou leio as palavras do Maurício.

    Maurício Morais é - ao menos pra mim - um dos maiores ilustradores desse país.

    Eu o conheci ocasionalmente navegando pela internet.

    Passei por seu blog e, diante de tantas obras de bom gosto expostas na vitrine, me detive a contemplá-las. Gostei tanto que a partir daquela data ficou impossível pra mim entrar na internet sem visitar seu ateliê.

    Não foram poucas as vezes que suas obras me seduziram não só por sua beleza, como por retratar fielmente alguns carros e pilotos que admirava e admiro. Alguns, sem saber, foram os responsáveis diretos pela entrada de mais um nas pistas.

    Fazia - e faço - uma economia em outra coisa e lá estava eu - e estou - adquirindo e trazendo pra perto de mim agradáveis recordações.

    Graças à aldeia global que se tornou a internet, tive a honra de conhecê-lo pessoalmente e passamos horas agradáveis no templo sagrado de Interlagos, onde surgiu entre nós uma amizade pra lá de verdadeira.

    Maurício, como conversamos uma vez, prefiro falar dos bastidores das corridas, porque no geral a maioria já conhece pelas revistas, portanto, gosto de passar algum detalhe a mais que as revistas, às vezes, não perceberam ou não podiam passar por falta de espaço.
    Forte abraço

    Guilherme
    Parte dessa emoção que você sentiu como se estivesse lá é porque pude transmitir a corrida pra você e os amigos leitores de dentro do carro, isso as revistas não podiam fazer, não por incompetência, mas porque não havia espaço pra isso, hoje as câmeras on board fazem esse trabalho.
    Sinto-me recompensado em saber que consegui passar pra você em palavras as imagens e emoções que senti de lá.


    Dionísio

    Não foi sacanagem, o texto estava muito longo.

    É rapaz, depois de tanto tempo com o carro parado, já pensou se em sua primeira volta à pista a gente perdesse ele incendiado. Aí é que seria sacanagem, não é não?

    Agora, que saber o que foi sacanagem mesmo?

    Só quando acabou essa bateria que meu pai nos revelou que a Motor Racing Enterprises havia dito que em situações extremas e por pouco tempo, poderia usar os giros em 7.000.

    Ele sabendo que a gente gostava de baixar a bota e com receio de fundir o motor, havia nos dito que o limite era 6.800 giros. Olha só... Mais uma dos bastidores.

    Você revelou que tem apenas 28 anos, veio a calhar. Como vivi uma época em que os autódromos costumavam estar abundantes de público, anos 60, e vendo agora eles vazios, única exceção nas corridas de F1 e da Stock Car, acho que consegui captar alguns dos motivos que, em minha modesta visão, levaram a isso.

    Enquanto estava escrevendo essas imagens me vieram à mente. Surgiu-me, então, a idéia de após o último capítulo, solicitar uma permissão ao Guilherme pra fazer uma coisa diferente com vocês aqui apenas um dia. Vou solicitá-lo por e-mail, caso ele permita, depois virei aqui comunicar.

    Abraços a todos e até o próximo capítulo.

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  7. Ainda não sei o que é, mas já está pré-aprovado.

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  8. Sidney, você é um gentlemam, um raro exemplar de homem que não se fabrica mais. Forte abraço.

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