sábado, 9 de maio de 2009

Ford GT40 ...15


O Ford GT40 na garagem da casa do Sidney Cardoso.




Nesse episódio, o Sidney nos contará como foi a passagem em que o GT40 quase entrou para o filme do rei Roberto Carlos "A Trezentos Quilômetros Por Hora"!



Eu ainda não sei como foi esse episódio, nem porque não deu certo. Por isso, espero ansioso para ler a sua narrativa.





O Filme teve como astro principal os Charger R/T 1971 amarelo boreal.
Aqui ao lado, um exemplar imaculado nos dias de hoje em foto exclusiva para este blog.












O Filme, ambientado nas pistas seria o hábitat perfeito para o nosso GT40...







10 comentários:

  1. CAPÍTULO: A AGRADÁVEL VISITA DO CANTOR ROBERTO CARLOS AO GT 40 EM NOSSA CASA

    Guilherme e amigo leitor que vem acompanhando a trajetória desse GT 40 no Brasil.

    Esse capítulo como você constatará na leitura teve uns lances muito engraçados, houve horas que parecia comédia.

    Bem, certo dia estava em casa, toca o telefone, atendo, e do outro lado uma pessoa - pra preservar sua identidade irei chamá-lo aqui ficticiamente de “Armando Volta” – e diz: - Olá Sidney, tudo bem? Sou o Armando Volta, se lembra mim?

    Eu: - Sinceramente, não estou ligando o nome a sua pessoa.

    Ele, então, começa a descrever alguns carros que iam ao autódromo, falando que era amigo de pilotos que eu conhecia, etc.

    Eu: - Ok. (por sua conversa vi que freqüentava o autódromo na área dos boxes, tinha assistido os 1000 km, mas continuava não me lembrando dele. Pra não ficar pedante, detesto isso, fiz de contas que havia me lembrado).

    Ele: - Sidney é o seguinte, nunca te falei sobre isso, sou amigo do Roberto Carlos, ele está pra fazer um filme sobre corridas, falei com ele do seu GT 40, ele ficou interessadíssimo em vê-lo de perto. Disse que conhecia esse carro de nome, sabia que havia ganho as 24 Horas de Le mans, etc.

    Continuou: - Como está o carro? Já está pronto?
    Eu: - Infelizmente, ainda não, estamos aguardando as peças chegarem.

    Ele: - Ele está apresentável? Ou está desmontado?

    Eu: - Está montado, as peças que estão faltando são internas, só não podemos ligar o motor porque ele está sem o virabrequim, explica isso a ele.

    Armando Volta: - OK, o GT 40 está em sua casa ou no colégio?

    Eu: - No colégio, lá tem garagem fechada sobrando, quando ele está parado sem precisar ligar o motor deixamos lá pra liberar uma vaga na daqui. Só o trazemos pra cá nas semanas próximas às corridas para o ronco não incomodar os alunos.

    (Pra quem está acompanhando do começo pode estranhar no treino dos 1000 km ele estar no colégio, mas ali era uma corrida de equipe, era um sábado, não teriam aulas, viriam muitas pessoas, de modo que combinamos de todos nos encontrarmos lá pra caberem todos carros).

    Ele: - Entendi. Olha vou falar com ele e ainda por esses dias te dou um retorno. Aguarde meu telefonema.

    Quem me conhece há mais tempo sabe que sempre fui fã do Roberto Carlos, tinha todos os LPs dele, selecionava as músicas que mais gostava, as gravava em fitas, ouvia em casa e no carro.

    Coloquei o fone no gancho transbordando de alegria e fui correndo partilhar com todos lá em casa, meu pai, minha mãe, os empregados, Antonio mecânico, e os amigos amantes de corridas que sempre estavam por lá batendo papo. Como eram outros tempos, sem essa violência atual, nossa casa vivia com os portões abertos e a rapaziada ligada à corrida estava sempre por lá papeando.

    Imagine minha alegria, meu ídolo viria em nossa casa e ainda iria filmar com ele!

    Todos foram contagiados pela mesma alegria.

    Aí, Roberto Dias Machado, supervisor de nossa equipe, disse-nos que conhecia esse cara, pra abrirmos os olhos, que ele já havia aprontado algumas com o piloto Norman Casari. Mais tarde um outro piloto que costumava passar lá também pra ficar no papo conosco, quase sempre a turma se reunia na garagem, nos falou algo parecido sobre o “Armando Volta”.

    Deixa eu abrir um pequeno parênteses aqui pra explicar um pouco sobre a função do Roberto Machado em nossa equipe e alguns fatos que ocorreram anteriormente, pra não ter que estar interrompendo a narrativa depois.

    Roberto era engenheiro mecânico e trabalhava numa fábrica de fogões que o Norman Casari possuía no Valqueire, bairro próximo à Jacarepaguá.

    Como Roberto gostava muito de corridas e se apresentava de boa vontade pra colaborar no que fosse preciso, ficando até mesmo depois do horário, Norman, sentindo isso, convidou-o pra fazer parte de sua equipe na função de angariar patrocinadores.

    Norman, mais tarde, precisou fechar a fábrica e teve que dispensá-lo por esse motivo.

    Um dia ele nos procurou, contou sua situação, disse que havia arrumado outro emprego, dava pra se sustentar muito bem, mas que não conseguia ficar fora do agradável ambiente de corridas e vendo que estávamos investindo sem retorno, inclusive soube de alguns “canos” que levamos, se ofereceu pra trabalhar conosco trazendo sua experiência anterior.

    Disse e era verdade, que estava trabalhando na empresa do sogro que vendia ar condicionado e mantinha uma rede de assistência técnica.

    Acrescentou que lá já estava tudo esquematizado, portanto poderia dispor de horário pra nós, que pagaríamos alguma coisa simbólica, tipo um percentual num patrocínio que ele conseguisse, o que queria mesmo era não sair daquele gostoso convívio das corridas.
    E assim ele ficou conosco.

    Vou narrar dois acontecimentos anteriores que ele sabia, pra depois não ficar a falsa impressão de que ele foi duro demais nas negociações.

    Como disse havíamos levado dois “canos” – quem é do ramo do automobilismo sabe que nesse meio tem pessoas honestas, íntegras, e que também pululam aproveitadores como carrapatos em volta.

    “Cano 1”: No final da novela Véu de Noiva, quando fui receber minha parte pelas filmagens não havia nada. Um autônomo que fazia o papel de intermediário, aquela pessoa que sai pra procurar o que a emissora está precisando.Esse que me contactou e me apresentou a eles para dublar cenas de corridas e alugar meu Puma, havia feito uma procuração falsa, falsificando, inclusive, minha assinatura dando-lhe poderes pra receber por mim.

    Como quase todo vigarista é boa praça, a turma via ele sempre comigo e não desconfiou. Devido essa trapaça ele foi desligado da emissora.

    “Cano 2”: Um dia fomos procurados por uma outra pessoa muito bem vestida.
    Ela nos deu seu cartão de gerente de uma agência de publicidade, com endereço e telefone.

    Disse-nos que a CCPL, Cooperativa Central dos Produtores de Leite, àquela época a maior distribuidora de leites no Rio, estava querendo fazer um comercial e solicitou pra que eu fizesse a filmagem no autódromo pilotando o GT 40, dublando um modelo.

    Combinamos valores e ficou tudo acertado.

    Fiz o comercial, passou várias vezes nas TVs em horário nobre. Quando fomos receber ele havia fechado o escritório e sumido!

    Procurei resumir bastante, só pra você se situar na circunstância dos fatos.

    Voltemos ao assunto principal. Estávamos bem alegres com o fato do Roberto Carlos querer conhecer o carro em nossa casa pra filmar com ele.

    Um mês depois Armando Volta liga e diz pra ficarmos preparados que o encontro seria dali a uns 10 dias.

    Faltando uns quatro dias para o encontro ele liga de novo e diz: - Olha, o Roberto está com receio de ir ao colégio e ser muito assediado pelas meninas - naquela época ele estava bem no auge de sua carreira. Vocês poderiam levar o carro lá pra sua casa.

    Eu: - Sim, claro.

    Ele: - Te ligo mais perto, por favor, não avise a ninguém. Tchau!

    Combinei com todos em casa pra não falar com ninguém.

    Certo dia Armando me liga: - O carro está em sua casa?

    Eu: - Sim.

    Ele: - Olha, estamos na Urca, o Roberto Carlos decidiu ver o carro hoje, vocês podem recebê-lo?

    Eu: - Sim.

    Ele: - Lembre-se de não avisar a ninguém, viu.

    Eu: - Tudo certo, tranqüilo.

    Nesse mesmo dia estávamos com um compromisso importante na BRV, de Herculano e Antonio Ferreirinha, tipo pegar ou entregar umas peças lá, não me lembro bem agora.

    A BRV ficava na Taquara, nossa casa no Pechincha, bairros bem próximos, coisa de 6 km, naquela época havia pouco trânsito, estávamos acostumados a ir e voltar em uns 10 minutos. Como ele disse que estavam na Urca, bairro bem distante de Jacarepaguá, fomos à BRV, eu, “Neném” e José Américo, pois tínhamos tempo de sobra.

    Em casa ficaram Antonio, o mecânico, seu ajudante o “Gordo” - que tempos depois foi trabalhar com Herculano Ferreirinha - e o jardineiro Waltencir, também estava lá.

    Fizemos tudo bem rápido, quando chegamos em casa... Surpresa!

    Estava o belo Landau do Roberto Carlos já dentro de casa, estacionado ali onde está o GT 40 e mais atrás um fusca do Armando Volta.

    Coloquei essa foto pra você ter uma idéia do lugar, na verdade o GT 40 estava dentro da garagem coberta lá no fundo.

    Ficamos intrigados, Armando Volta havia dito que estavam saindo da Urca...

    Saltamos do carro e vimos RC, Armando Volta, mais um rapaz baixinho dentro da garagem batendo papo com Antonio, o “Gordo” e Waltencir.

    Cumprimentamos, Armando fez as apresentações, o baixinho era apresentado como motorista do Roberto, mas na verdade era uma espécie de “faz de tudo”, além de dirigir comprava cigarros, pagava contas, etc. depois eles nos contaram.

    Pedi desculpas por não estar lá quando chegaram, disse-lhes que tinha um compromisso na BRV e como eles disseram que estavam na Urca calculei que daria tempo de sobra.

    Armando Volta - aparentando ter muita amizade comigo, como se nos conhecêssemos há muito tempo – me deu forte abraço, tapinha nas costas, etc. E disse que quando telefonou já estavam perto, mas que RC ficara com medo de que fôssemos avisar a muita gente.

    Roberto Carlos, sempre muito simpático, estava simples com uma camiseta, calça jeans, fumando um cachimbinho de bambu.

    Perguntei:- E aí, sentou no carro? Gostou?

    Ele, educadíssimo, respondeu: - Não, bicho, estava esperando o dono chegar.

    Eu:- Que isso? Pô, Antonio, você sabe que não tenho essas frescuras, por que não convidou pra ele sentar?

    Antonio:- Sidney, cansei de convidar, mas ele insistiu que só sentaria depois que você chegasse.

    Roberto Carlos: - Bicho, ele insistiu mesmo, podes crer. Mas que caranga bonita! Já tinha visto em fotos e em filmes, mas de perto é mais ainda.

    Bem, convidei-o a entrar no carro e ele adorou.

    Roberto:- Bicho, esse carro é uma brasa, mora! Isso deve voar! (rindo bem alegre). Não preciso nem mais ver outro é com esse que nós vamos filmar, claro, se você concordar.

    Lógico que muito feliz concordei.

    Me fez mais algumas perguntas sobre os instrumentos, expliquei, depois saiu e ficamos todos conversando ali na garagem um papo bem descontraído, gostoso e agradável.

    Enquanto conversamos fui percebendo que Roberto Carlos é bem mais forte do que aparece na TV, seus braços são fortíssimos, os bíceps e os tríceps bem acentuados. Acho que na TV não aparece porque ele está sempre de blazer.

    Bem, o papo continuou ótimo, fluindo bem, tudo na maior simplicidade. Roberto fumando seu cachimbinho de bambu, bem solto, falando com suas costumeiras gírias da época.

    A certa hora perguntei se não queriam entrar pra fazer um lanche – deveria ser umas 5 horas da tarde. Ele: - Que isso, bicho, não quero incomodar.

    Falei: - Que incomodar nada, será um prazer.

    Mas ele não quis entrar, achando que iria incomodar e ficamos ali no papo.

    Minha mãe veio convidá-los pra entrar e lanchar à mesa, mas eles insistiram que não.

    Ela, então, pediu a Eliete, copeira, pra levar uns sucos, cafezinhos e biscoitos pra nós ali na garagem.

    Eliete trouxe e todos tomamos lanchamos ali.

    Laís, a ex-noiva de meu irmão, que ficou morando conosco por uns tempos após seu falecimento, estava chegando da faculdade, quando viu o Landau lá, ficou surpresa sem saber de quem era.

    Acenou com a cabeça e um sorriso cumprimentando todos, e percebemos que quando viu que era o RC que estava lá ficou sem entender nada. Procurou aparentar uma tranqüilidade que não estava sentindo e entrou pra casa.

    Sua irmã Lucy era muito fã do Roberto e morava bem próximo dali.

    Uns cinco minutos depois Laís saiu de dentro de casa, passou por nós dizendo que voltaria logo.

    Passaram uns 10 minutos ela voltou e entrou de novo pra casa.

    Daí, mais uns 5 minutos, chega a irmã dela.

    Laís, então, se encaminha pra recebê-la, no justo momento que Eliete havia vindo pegar a bandeja com as xícaras e copos. Eliete tinha uns dezoito anos e como uma criança, na maior espontaneidade dá uma boa gargalhada e diz: - Ah! Matei a charada! Disse que foi comprar cigarros, mas foi é chamar a Lucy pra ver o Roberto Carlos de perto, né?

    Laís e Lucy ficaram vermelhas não sabiam pra onde olhar e entraram pra casa.

    Nós ficamos lá rindo do fato.

    Certa hora, Roberto me pergunta se poderia dar uma usadinha no banheiro, encaminhei-o até lá e voltei.

    Quando estava saindo do banheiro, encontrou-se com Olívia, nossa cozinheira antiguíssima na casa, pra você ter uma idéia ela foi trabalhar com minha mãe dois anos antes do Sérgio que era mais velho que eu nascer, era considerada e tratada mesmo como um membro da família, chamávamos ela de nossa “mãe preta”.

    Era uma pessoa interessante, folclórica, era da umbanda, e muitos políticos iam lá se aconselhar com ela.

    Bem, ela falou para o RC: - Se puder, depois dá uma passadinha lá embaixo, gostaria de falar algumas coisas com você. Ele concordou e foi na hora.

    Depois ficamos sabendo por ela que havia falado pra ele que o havia visto na TV e agora tinha confirmado que estava com os olhos muito fundos, que deveria cuidar mais da saúde, parar um pouco com as farras, etc, enfim, coisas da Olívia.

    Ele conversou conosco sobre o que ela havia lhe dito e foi mais um que nos falou que tinha adorado ela.

    Depois continuamos todos batendo papo na garagem.

    Certa hora percebi RC falando alguma coisa particular com Armando Volta. Minuto após este último me faz um sinal, me chama no canto e diz: - Sidney é o seguinte no caminho pra cá pintou um programa inesperado para o RC e seu secretário. Ele veio meio desprevenido. Viu que vocês são íntegros, será que você teria possibilidade de trocar um cheque de 500 cruzeiros? Por favor, seja discreto.

    (relutei intimamente em escrever essa parte, preferia, sinceramente, não colocá-la, apaguei-a várias vezes, mas cheguei a conclusão que se não a colocasse, no final desse capítulo vocês não iriam entender bem o porquê de nossa justa desconfiança com o Armando Volta).

    Respondi:- Armando, você me pegou desprevenido, vou ver se minha mãe tem.

    Entrei, falei com ela, ela possuía e me deu o dinheiro. Chamei Armando Volta e entreguei a ele. Ele então fez um sinal de positivo para RC.

    RC me agradeceu, pegou o cheque em seu bolso e falou: - Duzentos e cinqüenta cruzeiros, certo?

    Percebi que Armando Volta ficou vermelho, respondi ao RC: - Não, Armando me falou quinhentos cruzeiros.

    RC, sem entender, falou meio indignado para o Armando: - Não entendi, bicho, te falei 250 cruzeiros?

    Armando Volta, sem graça: - É, me enganei... Faz o cheque de 250 cruzeiros que devolvo a ele.

    Assim foi, RC fez o cheque de 250, Armando Volta me devolveu os outros 250,00.

    Conversamos mais um pouco, nos despedimos e na saída RC saiu dirigindo o Landau e o secretário-motorista foi no banco ao lado.

    Ai, aconteceu um fato bem engraçado: Vinha um senhor andando na calçada, olhou pro carro, quando viu o RC na direção teve um espanto!
    Olhou pra ele pra conferir, olhou pra nós, como se não estivesse acreditando no que estava vendo.

    RC saiu, o senhor não se conteve e nos perguntou:- Desculpa, foi impressão minha ou era mesmo o Roberto Carlos? Confirmamos e ele saiu feliz, sorridente.

    Depois que eles saíram Armando Volta disse que ele adorou o GT 40 e que queria filmar com ele. Falei que tudo bem.

    Me chamou no canto e falou:- Bicho, me passa esses 250,00.

    Falei: - Como? Não entendi?

    Ele: - Poxa, eu trouxe RC na sua casa, sabe o que isso significa? Você poderá contar isso pro resto de sua vida, não acha que vale duzentos e cinqüenta cruzeiros? (engraçado, hoje vejo que acabou acontecendo o que ele falou).

    Falei:- Armando, não te pedi nada, foi você quem me procurou pra pedir isso.

    Ele insistiu, fiquei até com pena, quase cedi, mas lembrando-me dos “canos” anteriores neguei ficando com o cheque e o dinheiro.

    Ele se conformou e foi embora em seu Fusca.

    Todos que estavam ali na garagem perceberam o lance e comentaram que esse Armando volta era um bom picareta.

    Entramos, devolvi o cheque e o dinheiro à minha mãe e rimos bastante da situação que Eliete tinha colocado a Laís.

    Laís, por sua vez, estava ‘tiririca”: - Eliete, pra que você foi falar aquilo? Que vergonha! Não sabia onde enfiar minha cara, etc. A irmã dela Lucy idem.

    Minha mãe, rindo, falou pra nós: - Vocês não sabem da maior, que vergonha! Cheguei cansada de SP, vim com malas. Quando fui entrar dei com os dois carros ali e tive que parar na calçada.

    Chamei o Antonio e falei:- Poxa, Antonio, você não sabe que eu canso de pedir a vocês pra colocarem os carros ali nas pedras ao lado, porque lá não tranca o meu. Não custava nada você pedir aos rapazes pra estacionarem ali.

    Continuou ela rindo, aí Antonio me falou baixinho entre dentes: - Dona Arlette esse carro é do Roberto Carlos.

    Ela, rindo e contando: - Que Roberto Carlos nada. Aí olhei e era ele mesmo... Pedi desculpas e expliquei o problema dos meninos sempre trancarem meu carro. Meu Deus, que vergonha.

    Bem, ficamos ali entusiasmados conversando e rindo bastante dessas situações.

    Todos quiseram ver o cheque de perto, estava assinado Roberto Carlos Braga, hoje seu sobrenome é conhecido, porém naquela época foi uma novidade.

    Mais tarde, lá fora na garagem, e muitos dias seguintes o Waltencir se revelou um ótimo imitador, ficava imitando os gestos do RC fumando cachimbo e falando parecidíssimo: - Bicho, esse carro é uma brasa mora!

    Meu pai que tinha ficado trabalhando no colégio, quando chegou falou:- Poxa, vocês nem chamaram?

    Falamos pra ele que foi tudo muito rápido, que nos pegaram de surpresa. Ele deu o valor correspondente ao cheque à minha mãe e ficou com ele sem descontar por um mês mais ou menos, vivia mostrando-o aos amigos.

    Bem, como é de se imaginar, a visita ilustre de RC e as gafes da turma ali foi o assunto principal daqueles dias.

    Umas duas semanas após me liga o Armando Volta dizendo que RC confirmara que iria filmar com o GT 40 e que estava tudo certo.

    Roberto Machado, então, me disse:- Sidney, chega de entrar pelo cano, dessa vez quem vai negociar sou eu. Conheço o Armando Volta e ele não vai te dar volta nenhuma.

    Quando ele ligar de novo diz que a negociação é comigo.

    Passado mais algum tempo Armando Volta me liga informando a data de início das filmagens em Interlagos e pra eu ir pra lá com a turma e o carro.

    Falei com ele que quem iria negociar era o Roberto Machado.

    Ele: - Negociar o quê?

    Respondi: - Não sei bem, essas coisas ficam por conta do Roberto.

    Ele: - Sidney, vocês vão ficar famosos, RC não vai pagar nada.

    Passei o telefone do Roberto pra ele ligar e combinar.

    Armando ligou para o Roberto, o papo foi parecido.

    Roberto, então, perguntou: - Quantos vocês vão pagar? E o transporte? Gasolina, estada no hotel, etc.

    Armando Volta falou o mesmo: - Mas vocês vão ficar famosos fazendo a filmagem. RC não vai pagar nada.

    Roberto: - Fama não paga contas. Engraçado, você sabe muito bem que todos vão faturar bastante com o filme. E você acha que seria justo os bobocas aqui trabalharem de graça?

    Roberto, disse, então, que procurassem outro carro que assim não tinha negócio com o GT 40.

    Armando Volta disse que iria falar com RC e dali a uns dias daria um retorno.

    Roberto Machado falava pra nós: - Isso é grupo desse cara, sei como é isso, a produção paga e ele embolsa, sacaram?

    Passaram uns quatro dias ele liga e diz que o máximo que ele podia fazer era pagar a gasolina da viagem.

    Roberto respondeu que negativo.

    Armando Volta disse então que iria falar com RC de novo e ligaria depois.

    Mais uns quatro dias e ele falou que pagariam o transporte e a estada, mas não teria cachê.

    Eu e alguns da turma achamos que já estava bom, estávamos querendo ir assim.

    Roberto falou pra mim que este cara estava levando a grana do RC e embolsando, que isso não existia profissionalmente.

    Ele disse, então, pro Armando Volta que negativo, pra ele arrumar outro carro.

    Armando Volta insistiu muito, mas Roberto fincou pé e assim RC filmou com outro carro.

    Interessante as voltas que a vida dá, durante aquele tempo de negociação Roberto tentou por vários meios conseguir um contato direto com RC, mas foi impossível, existia uma rede de proteção muito bem feita.

    Alguns anos depois, mais precisamente de 79 a 83, produzi e dirigi 5 festivais de músicas, esses festivais devido a alta qualidade de seus músicos, maestros arranjadores e jurados tornaram-se famosos na zona norte, os pedidos foram tantos que depois não eram só nossos alunos que participavam, eles ficaram abertos a todos colégios e faculdades.

    Com mais gente concorrendo, aumentou proporcionalmente a quantidade e qualidade das músicas. As músicas eram levadas em fita cassete e os professores de música do colégio e alguns maestros selecionavam as quinze finalistas. Como esse festival havia sido criado por mim que também o dirigia, estava sempre presente nessas horas e havia momentos que dava dó em todos nós ter que excluir algumas, mas se ficassem muitas o festival perderia o timing.

    Esses festivais ficaram conhecidos como FEMCAI Festival de Músicas do Colégio Arte e Instrução.

    Nessa época tive muitos dos músicos do RC tocando conosco, como o maestro e saxofonista Hélio Marinho, já falecido, o trompetista Evaldo que compôs a primeira música de abertura do primeiro Festival, o também trompetista Barreto, falecido há pouco, idem Hamilton Cruz, o “Broa’, o também trompetista “Formiga”, ex-aluno de lá, o pianista Sérgio Carvalho, também ex-aluno, o percussionista Ari Santos que Eduardo Lages conheceu lá e o levou pra um dos especiais do RC pra tocar junto com Dedé, seu percussionista principal, o violonista José Menezes, como mostram as fotos e mais outros que não aparecem nelas, como o saxofonista Aurino, o trombonista Onofre, etc.

    Tivemos como participante do júri Luiz Carlos Ismail, chefe do coro do RC e, vou revelar pra vocês uma curiosidade que poucos sabem, ele é primo do RC.

    Enfim, tornei-me amigo da maioria, eles adoravam o FEMCAI, inclusive o maestro e compadre do RC, Eduardo Lages. Veja como as coisas mudam, nessa época seria facílimo o contato direto com RC, como acabou acontecendo.

    Muitas das vezes que fui aos shows do RC, aliás, fui a quase todos, tive a honra de ser convidado pra bater papo e tomar umas cervejinhas na mesa deles.

    Em suma, não participamos das filmagens, mas obtivemos muita satisfação depois.


    Os maestros da Globo foram todos sem exceção, também adoravam porque viam e sentiam o trabalho deles reconhecido na hora com os aplausos do público ali naquele contato direto.

    Era diferente de trabalhar nos estúdios fechados da LEVEL, na Rua Assunção, em Botafogo, onde faziam as trilhas incidentais das novelas e linhas de show.

    Estamos falando do Roberto Carlos, é pra lá de justo falar dele, por sinal, nesse ano ele está completando 50 anos de carreira.

    Mas permitam-me aproveitar a oportunidade e prestar também uma pequena homenagem a esses talentosos maestros que na maioria das vezes trabalhavam anonimamente e, muito provavelmente, interferiu na sua emoção sem que você soubesse, caso tenha assistido algum programa da TV Globo nos anos 70, que não fosse filme importado.

    Na foto abaixo do painel de divulgação do V FEMCAI aparecem quase todos, descreverei da esquerda pra direita o que faziam.

    Primeiro Décio Fonseca, apresentador; segundo Eb Laaf, apresentadora; terceiro Maestro Ivan Paulo, era o maestro do programa Globo de Ouro, é filho do falecido maestro Carioca; quarto maestro Geraldo Vespar, era o responsável pela música incidental das novelas das 7 da noite; quinto de barba, maestro Guio de Moraes, - falecido - era supervisor de toda linha de shows; sexto, mais baixinho, maestro José Menezes, autor do tema dos Trapalhões; sétimo atrás dele maestro Evaldo Santos, nessa época ainda não trabalhava na Globo, havia feito arranjos para Fagner, Vanusa e muitos outros cantores, devido a qualidade de seus arranjos foi indicado pelos outros maestros da Globo a trabalhar conosco no V FEMCAI, por sinal, o cantor que venceu esse festival teve o arranjo feito por ele.

    Logo após esse festival Marcio Antonucci, Diretor Geral do Musical da Globo, que estava no júri, o contratou e ele passou a dirigir o Globo de Ouro; oitavo, meio encoberto por Eduardo Lages, maestro Hélio Marinho, era maestro da orquestra da casa de Shows Asa Branca e dividia com Guio de Moraes a regência e arranjo da casa de espetáculos Scala; nono maestro Eduardo Lages, era o criador das vinhetas dos jornais da TV Globo e maestro do RC; décimo maestro Dulcídio Gavião, era o responsável pela sonoplastia do Fantástico e vários outros programas, além de ser o responsável pelas músicas e vinhetas do show do Jô Soares “Um Gordoidão no País da Inflação”, amicíssimo meu, foi o supervisor musical de todos festivais e o criador da música de abertura do II ao V; onze apresentador Humberto; doze apresentadora Grácia.

    Nessa foto eles estão batendo palmas e olhando pra direita, é que estava sendo chamado pra nossas homenagens aos maestros, Waltel Blanco, que estava no júri.

    Waltel era supervisor musical de todos seriados e casos especiais da TV Globo e, uma revelação pra vocês, foi o criador com Severino Araújo da famosa orquestra Românticos de Cuba, aquela que seus LPS eram executados em quase todos bailes dos anos 60.

    Pois é, ninguém sabia porque aquela orquestra nunca se apresentara ao vivo, acontece que ela não existia, Waltel Branco e Severino Araújo juntavam os melhores músicos e gravavam em estúdio. De Cuba não tinha nada, eram todos brasileiros.

    Alonguei-me um pouco falando do FEMCAI, é porque ele me dava um imenso trabalho, mas no final o resultado era maravilhoso eu o ADORAVA!

    Encerrando esse capítulo faço minha as palavras do Roberto Carlos: Foram muitas emoções, bicho!

    No próximo capítulo falaremos do GT 40 já pronto e correndo nas preliminares das primeiras corridas de Fórmula Três em Interlagos.
    Abraços pra todos e até lá!

    ResponderExcluir
  2. Sidney, um melhor que o outro!!!

    eu li esse texto com um sorriso no rosto!
    texto muito lúcido, parece que isso aconteceu hoje a tarde, parabéns, não só pelo texto, mas pela vivência!

    ResponderExcluir
  3. Sidney,

    Fico simplesmente estupefato com as suas memórias !!!!
    você consegue se lembrar dos mínimos detalhes na narrativa,que é sempre feita minunciosamente,e numa linguagem impecável,e ao mesmo tempo deliciosa,que nos transporta ao fato totalmente,como se tivéssemos feito parte dele...
    Se eu fosse dono ou sócio da Americar,a empresa que faz réplica praticamente perfeita do GT-40,te convidaria pra ser garoto-propaganda...E digo mais,faria um GT-40 tribute car com as cores e faixas do Colégio Arte & Instrução,e deixaria contigo pra sempre.Imagine só o impacto de ter um bicho desses solto pelas ruas do Rio !!!!!
    Grande abraço do amigo do Sul,

    Mário

    ResponderExcluir
  4. Grande Sidney, esta hitória está maravilhosa. Vai virar livro????? Aproveitei para "piratear" mais algumas fotos para o site do Lorena (http://www.webng.com/lorenagt). Voce realmente é ímpar ao narrar todas estas suas experiências e nos fazer relembrar e sonhar.... Um grande abraço

    Guilherme, só uma palavra: "Parabens!"

    Mário Estivalét

    ResponderExcluir
  5. Sidney,
    História maravilhosa, muito bem narrada e com todos os tipos de personagem, moçinho, vilão, investigador, etc. Parabéns! Senti como o Guilherme comentou, parecia que havia acontecido hoje a tarde e acrescento, podemos até imaginar as expressões dos personagens, principalmente a cara do Armando, quando lhe pediu os 250, essa foi demais, ô cara de pau!

    ResponderExcluir
  6. Um detalhe que parece ter passado despercebido foi o pseudônimo escolhido pelo Sidney: Armando Volta.

    ResponderExcluir
  7. Amigos

    Eu é que me sinto feliz em saber que estou agradando a vocês.

    Mario Cesar Buzian

    Em um dos capítulo anteriores, você havia deixado um comentário, como não aparecia seu sobrenome, Buzian, na hora te respondi pensando que estava conversando com o Mário Estivalét.

    Só dias depois me dei conta que era você, quando percebi que havia citado a Adriana e Ornella Greco.Pois sei da amizade de vocês.
    Desculpe-me a mancada.

    Quanto à réplica do GT 40 da Americar, tive a honra de receber um recado do proprietário da fábrica, Jean Cleber, através do amigo e piloto Amauri Mesquita, que teve com ele, se não me falha a memória, no encontro de Águas de Lindóia, e ele me passou seus telefones pra entrarmos em contato.

    Pois é, Milton Masteguim, que era proprietário da Puma, me ofereceu um Puma bem mais em conta do valor de mercado e acabou dando uma sorte incrível, visto que logo em seguida fui procurado para alugá-lo pra novela das 8 da noite. E sendo o carro do artista principal, aparecia quase sempre. Quem sabe essa sorte não se repete com o Jean?
    Forte abraço

    ResponderExcluir
  8. Mário Estivalét

    Virar livro nada, são poucas as estórias pra contar.

    Pode "piratear" as fotos à vontade, estão em boas mãos.

    Por sinal, passei esses dias pelo seu site e vi que você ainda está com umas fotos antigas, da época que eu não sabia escanear bem.

    Depois te enviei essas fotos bem melhores em qualidade, caso não as tenha recebido, por favor me avise que te envio novamente.
    Abração.

    ResponderExcluir
  9. Felipe Nicoliello

    Obrigado, as coisas que nos emocionam, como essa visita do Roberto Carlos, ficam gravadas em nossa mente pra sempre.
    Abraços.

    ResponderExcluir
  10. É... Entrar em contato com RC naquela época não era mole. Na década de 60 o saudoso Tim Maia queria encontrar o velho amigo da Tijuca para ver se ele o apadrinhava em inicio de carreira, teve que invadir a garagem do prédio de RC para falar pessoalmente com ele porque a “turma” não deixava. HeHe

    Como disse o amigo Guilherme: Li o texto com um sorriso no rosto também.

    Sidney, você acertou em cheio ao colocar a foto da entrada da sua garagem para ilustrar este momento delicioso tanto para você quanto para nos, quase 40 anos depois.

    PS.: Acho que Armando Volta levou um chute na bunda do RC, ou será que ele enganou a Chrysler? HeHe

    ResponderExcluir